domingo, 18 de maio de 2008


Resumo Cibernética

Equipe:
Deborah
Doralice
Carlos Afonso
Camila
Jhoseline
Rafael Seixas

A teoria cibernética de Wiener, da década de 1940, originou pesquisas
e influenciou vários campos científicos, incluindo a antropologia. Atualmente, a
cibernética está praticamente esquecida como uma ciência, mas deixou importantes
resíduos para a cultura. Esses resíduos, dentre outros provenientes do discurso
técnico e cientifico, são meios criativos para as reavaliações do consenso social
acerca dos significados das coisas.
Resultados de um processo de reinvenção cultural, o ciborgue e o ciberespaço são
referências emblemáticas de uma nova ordem do real que projeta o sistema antigo
de interpretação da realidade sob novas formas, restringidas pelas dadas possibilidades
históricas e culturais de significação.
Em 1948, o matemático Norbert Wiener publicou Cybernetics: or the
Control and Communication in the Animal and the Machine, livro que
apresenta as hipóteses e o corpo fundamental da cibernética,
Ele entendia que a cibernética seria uma teoria das mensagens
mais ampla que a “teoria da transmissão de mensagens da engenharia elétrica”,
[…] um campo mais vasto que inclui não apenas o estudo da linguagem
mas também o estudo das mensagens como meios de dirigir a
maquinaria e a sociedade, o desenvolvimento de máquinas computadoras
e outros autômatos […], certas reflexões acerca da psicologia
e do sistema nervoso, e uma nova teoria conjetural do método científico.
(Wiener, 1984, p. 15).
O campo que Wiener designa de “cibernética” teve início durante os
esforços relacionados com a II Grande Guerra, quando ele realizou pesquisas
com programação de máquinas computadoras e com mecanismos de controle
para artilharia antiaérea. Tanto em uma como em outra pesquisa,
Wiener engajou-se no que descreve como “estudo de um sistema elétricomecânico
que fosse desenhado para usurpar uma função especificamente
humana”: a “execução de um complicado padrão de cálculo” em um caso
e a “previsão do futuro”, no outro.
Em suas pesquisas sobre a artilharia aérea ele se interessou particularmente
pelo princípio que a engenharia de controle denomina de feedback.
Basicamente, esse princípio consiste em realimentar o sistema com as informações
sobre o próprio desempenho realizado a fim de compensar os desvios
em relação ao desempenho desejado.
Para Wiener, o sistema nervoso central engendra um processo
circular – “emergindo do sistema nervoso para os músculos, e reentrando ao
sistema nervoso pelos órgãos dos sentidos” – cujo princípio seria idêntico ao
que havia encontrado em dispositivos de controle de máquinas (Wiener,
1948, p. 15).
Modelo antropológico e resíduo cultural
Influenciado pela descoberta apresentada por Wiener de
que “o conceito social-científico de ‘informação’ e o conceito natural-científico
de ‘entropia negativa’ eram de fato sinônimos”, Bateson desenvolveu teorias onde as relações sociais poderiam ser vistas como “comunicações
entre membros co-dependentes cuja interação habitual é caracterizada por
circularidades, oscilações, limites dinâmicos e feedback”.
Ainda acrescentam Rapport e Overnig (2000, p. 113-115) que a cibernética
de Bateson influenciou amplamente o pensamento das ciências sociais
O trabalho de Goffman sobre “como a estrutura social e a realidade são
mantidas pelo processo de sanções sociais, ‘encontros’ situacionais, ou ‘sistemas
de atividades situadas’” carrega o sinal distintivo da cibernética; já
Strathern faz uso da figura do cyborg e mostra “como a natureza das coisas
no mundo é um efeito obtido pela contínua e recíproca relação entre as
partes em um particular ponto no tempo e espaço”; a influência da cibernética
está também implícita na noção estruturalista da sociedade, vista
como um sistema de comunicação baseado na troca de mensagens culturais
de tipo binário
Também encontramos componentes cibernéticos no pensamento de
Geertz que, por sua vez, vê na relação entre a evolução cultural e a evolução
biológica princípios da cibernética que levam a um processo contínuo de
realimentação e influências recíprocas e condicionadas:
Também encontramos componentes cibernéticos no pensamento de
Geertz que, por sua vez, vê na relação entre a evolução cultural e a evolução
biológica princípios da cibernética que levam a um processo contínuo de
realimentação e influências recíprocas e condicionadas:
À medida que a cultura, num passo a passo infinitesimal, acumulou-se
e se desenvolveu, foi concedida uma vantagem seletiva àqueles
indivíduos da população mais capazes de levar vantagem […] até que o Australopiteco proto-humano, de cérebro pequeno, tornou-se o
Homo Sapiens, de cérebro grande, totalmente humano.
É importante notar que, se por um lado, a cibernética não se consolidou
no plano científico, ela influenciou de forma determinante a cultura moderna
com resíduos de seus modelos explicativos, engendrando, junto com outros
resíduos que são incessantemente produzidos pela tecnologia e ciência, o que
poderíamos chamar hoje de “cibercultura”.
Um dos resíduos mais importantes que a cibernética legou à cibercultura
foi a visão de que os seres vivos e as máquinas não são essencialmente diferentes.
Essa noção se manifesta, em especial, nas tecnologias especializadas em
mimetizar a vida (tecnologia da informação, robótica, biônica e
nanotecnologia) e nas tecnologias especializadas em manipular a vida (as
biotecnologias), onde a relação entre organismo e máquina depende intrinsecamente
do texto, não só na forma de narrativa científica, mas também
na forma dos códigos que determinam o funcionamento tanto das máquinas
(softwares) como dos seres vivos (o código genético).
Segundo Lévi-Strauss O universo não é um agregado de “objetos em si”, mas um repertório
organizado de objetos significantes que portam significados socialmente
compartilhados. E desde que “o sentido do signo (o valor saussuriano) é definido por suas relações de contraste com outros signos do sistema […]
ele só é completo e sistemático na sociedade (ou na comunidade de falantes)
como um todo” (Sahlins, 1990, p. 10).
Podemos, por exemplo, entender que o consenso social acerca
do que é correio eletrônico (e-mail) está dentro dos limites de significações
de “eletrônico” e “correio” (electronic e mail), sobre os quais já havia um
consenso social. O mesmo ocorre com ciberespaço (cybernetics space) ou
ciborgue (cybernetics organism). São exemplos onde os termos que sintetizam
o discurso técnico-científico (“e” de electronic ou “cyber” de
cybernetics) adquirem novas conotações e engendram significados inéditos
na sua conjunção com antigos significantes (mail, space, organism), projetando
o sistema antigo de interpretação da realidade sob novas formas,
dentro das dadas possibilidades históricas e culturais de significação.
Os robôs e computadores são antigos personagens do nosso imaginário
e, de certa forma, mais antigos que a própria cibernética. Mas há entre o
homem de lata mecanizado e o corpo humano, ou entre uma máquina de
calcular programável à válvula e a mente humana, descontinuidades gigantescas,
de tal forma que eles dificilmente passam de representações caricaturadas
do homem, chegando, em muitos casos, a reafirmar a oposição das
categorias que separam o humano da máquina.
O futuro cibernético implica uma nova ordem do real, porque, enfim, a
intercambialidade é apenas uma questão de compatibilidade funcional.
Ciborgues: o corpo pós-humano
As máquinas do final do século XX tornaram completamente ambígua
a diferença entre o natural e o artificial, entre a mente e o corpo, entre
aquilo que se autocria e aquilo que é externamente criado, podendose
dizer o mesmo de muitas outras distinções que se costumavam
aplicar aos organismos e às máquinas. Nossas máquinas são
perturbadoramente vivas e nós mesmos assustadoramente inertes.
(Haraway, 2000, p. 46).
O ciborgue é também uma forma de retomar o sonho de Victor
Frankenstein disfarçando aquilo que causava horror na sua criatura mortaviva
feita com retalhos de cadáveres de pessoas e animais esquartejados
“ainda vivos para aproveitar-lhe o sopro de vida na recomposição”.
Certamente, os significados do homem pós-humano foram determinados
sobremaneira pelos resultados e promessas da ciência e da tecnologia,
sem os quais o ciborgue não seria sequer inteligível. O coração é um dos
objetos mais emblemáticos – tanto pela sua importância fisiológica como
pelo seu valor simbólico – dos esforços científicos em superar os limites do
homem com máquinas. Não por acaso, o coração foi um dos primeiros
órgãos – talvez o primeiro – a receber o acoplamento definitivo de uma
máquina.
As fronteiras do ciberespaço
Ciberespaço. Uma alucinação consensual vivida diariamente por bilhões
[…] Uma representação gráfica dos dados abstraídos dos bancos
de dados de cada computador no sistema humano. Complexidade
inimaginável. Linhas de luz enfileiradas no não-espaço da mente,
agregados e constelações de dados. Como luzes da cidade, retrocedendo…
(Gibson, 1984, p. 51, tradução minha).
A efetiva vulgarização da cibernética ocorre a partir dos anos 1980 sob
a influência de um tipo de literatura de ficção científica que ficou conhecida
como cyberpunk.3 A influência desse gênero literário no cinema foi determinante
para a disseminação dos contornos e conotações que o “cibernético” tem
hoje. O cyberpunk aglutinou a visão distópica do movimento punk e os
estereótipos de seu estilo de vida ao imaginário futurista no qual as gadgets
(bugigangas e geringonças) “cibernéticas” e os ciborgues foram amplamente
cotidianizados. Um dos principais legados do cyberpunk é a imagem do
homem-gadget (homem-objeto que não é muito mais que um gadget
acoplado a um sistema ou rede de gadgets) cujo corpo é um banal suporte
de biônicos e cuja mente só encontra sua totalidade quando conectada ao
“ciberespaço”.
Mas o território em questão, a fronteira eletrônica, tem cerca de 130
anos. Ciberespaço é o “lugar” onde a conversação telefônica parece
ocorrer. Não dentro do seu telefone real, o dispositivo de plástico
sobre sua mesa. […] [Mas] O espaço entre os telefones. O lugar
indefinido fora daqui, onde dois de vocês, dois seres humanos, realmente
se encontram e se comunicam
A preocupação de Sterling com o estatuto de “realidade” tem a ver
com a natureza do ciberespaço atualmente conhecida como “virtual”. Esse
“virtual” é apreendido, em muitos casos, como uma oposição à natureza
“real” da “realidade”.
É certo que, assim como no ciborgue, os limites de significação do
ciberespaço estão diretamente relacionados com a inteligibilidade que a produção
e o progresso técnico e científico têm no senso comum.
O que chamamos de realidade virtual é a camada de interação sensível
entre o homem e o ciberespaço.
Enfim, quanto mais humanizamos e tornamos “amigável” a nossa relação
com o ciberespaço, por meio de simulações que imitam a nossa realidade
não-virtual, mais nos tornamos cibernéticos.

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